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IA agêntica no setor público: antecipar necessidades e transformar a experiência do cidadão

Publicado : 04/07/2026

Alexander Brasaola
Diretor de Salesforce para o Setor Público na Inetum.

A relação entre cidadãos e administração pública está a entrar numa nova fase. A IA agêntica no setor público não se limita a melhorar o atendimento, redefine o próprio modelo de interação: deixa de ser reativo e passa a ser contínuo, contextual e orientado à antecipação de necessidades.

Falamos de agentes inteligentes capazes de compreender contexto, tomar decisões e executar ações ao longo de processos complexos. Para decisores públicos e líderes de IT, a questão deixou de ser se a inteligência artificial deve ser adotada. O verdadeiro desafio é como operacionalizá-la com escala, ética e impacto real.

Duas pessoas a utilizarem um tablet em conjunto num espaço público bem iluminado ou num escritório, a acederem a informação digital.
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De serviços digitais a experiências fragmentadas

Nos últimos anos, a transformação digital no setor público traduziu-se sobretudo na digitalização de formulários e na passagem de processos presenciais para canais online. Apesar destes avanços, a experiência continua frequentemente lenta e pouco intuitiva.

Em contraste, setores como banca ou retalho já operam com modelos personalizados, omnicanal e disponíveis 24/7. Muitas entidades públicas permanecem presas a uma lógica onde o cidadão se adapta ao sistema, e não o contrário.

É neste ponto que a IA agêntica ganha relevância: não como evolução incremental dos chatbots, mas como um novo paradigma operacional.

IA agêntica e automação: uma mudança estrutural

Ao contrário das soluções tradicionais, os sistemas de automação inteligente baseavam-se em fluxos rígidos e decisões pré-definidas. Funcionam em cenários simples, mas mostram limitações quando surge complexidade.

A IA agêntica introduz capacidades distintas:

  • Compreensão avançada da linguagem natural
  • Memória contextual ao longo da interação
  • Capacidade de atuar diretamente sobre sistemas

Na prática, deixa de responder apenas a perguntas para passar a gerir casos ponta a ponta.

Esta evolução é particularmente relevante num contexto público marcado por complexidade normativa e fragmentação organizacional. O cidadão não quer repetir informação nem navegar entre departamentos; espera consistência e continuidade.

Citizen 360: uma visão integrada do cidadão

O conceito de Citizen 360 responde a um problema estrutural: a ausência de uma visão unificada do cidadão.

Historicamente, diferentes sistemas e departamentos operaram de forma isolada, resultando numa experiência fragmentada. Com plataformas como Salesforce Public Sector Solutions, Data Cloud ou Einstein, torna-se possível consolidar dados de múltiplas fontes e manter o contexto de cada interação.

O impacto é claro:

  • Atendimento consistente em todos os canais
  • Redução de redundâncias e erros
  • Maior eficiência interna

Seja por telefone, email, portal ou atendimento presencial, o cidadão passa a ser reconhecido como um único interlocutor, com um percurso contínuo.

Serviços públicos proativos: da reação à antecipação

A proatividade é uma das maiores mudanças introduzidas pela IA agêntica.

Tradicionalmente, a administração aguarda que o cidadão identifique uma necessidade e inicie um processo. Com agentes inteligentes, é possível identificar momentos relevantes, como:

  • Nascimento de um filho
  • Mudança de residência
  • Abertura de atividade
  • Situações de saúde específicas

A partir daí, tornam-se possíveis recomendações automáticas de serviços, apoios ou procedimentos.

Este modelo tem um impacto direto em áreas sociais e de emprego, onde muitas pessoas desconhecem os seus direitos ou enfrentam barreiras de acesso. Mais do que eficiência, trata-se de simplicidade e inclusão.

IA como copiloto na gestão pública

A adoção de IA levanta naturalmente preocupações sobre o impacto no trabalho dos colaboradores públicos. Na prática, a abordagem dominante aponta para a complementaridade, não substituição.

A IA agêntica assume tarefas repetitivas, como:

  • Classificação de pedidos
  • Geração de resumos
  • Pesquisa de informação dispersa

Liberta, assim, tempo para atividades com maior valor humano: acompanhamento personalizado, decisão e mediação.

Na nossa experiência com organizações públicas, este modelo de “copiloto” já demonstra resultados concretos. Casos como o da Junta de Castilla-La Mancha ilustram a utilização de IA para apoiar equipas de atendimento com transcrição automática, bases de conhecimento inteligentes e assistentes operacionais.

Desafios reais: dados, governação e confiança

Apesar da maturidade tecnológica, os principais obstáculos continuam a ser estruturais.

A qualidade dos dados mantém-se um desafio crítico. Sistemas legados, informação incompleta e modelos de governação insuficientes limitam o potencial da IA.

A isto junta-se a necessidade de garantir:

  • Transparência nas decisões
  • Explicabilidade dos modelos
  • Supervisão humana

Num contexto público, a confiança é determinante. A IA não pode funcionar como uma “caixa negra”.

Da experimentação à escala

Muitas administrações já ultrapassaram a fase de pilotos. O foco está agora em escalar soluções e gerar impacto sustentável.

Isto implica mais do que tecnologia. Exige:

  • Modelos de governação claros
  • Gestão da mudança organizacional
  • Integração progressiva com sistemas existentes

Na prática, o valor surge da combinação entre conhecimento tecnológico e entendimento profundo do setor público.

Uma nova relação com o cidadão

A IA agêntica abre caminho a serviços públicos mais personalizados, acessíveis e eficientes. A transformação não está apenas na automação, mas na capacidade de construir interações simples, coerentes e orientadas ao contexto.

O passo seguinte para decisores é claro: transformar iniciativas isoladas em modelos operacionais consistentes, capazes de acompanhar o cidadão ao longo de todo o seu percurso.

Porque, no fim, a verdadeira transformação digital mede-se na qualidade da relação entre administração e sociedade.

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